Entrevista com Ernestina Maria de Assunção Cintra, Assistente Social e Gestora de Convênios da APAE Franca

Entrevista realizada como exigência parcial para obtenção de média bimestral, do Prof. Orientador Maurício Mello.

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Ernestina Maria de Assunção Cintra, 48 anos, Assistente Social e Gestora de Convênios da APAE Franca

Mônica: O que é e o que faz a APAE Franca?Ernestina: A APAE é uma entidade que atende a pessoa com deficiência intelectual e múltipla. Para entrar na APAE o usuário precisa ter a deficiência intelectual ou múltipla. Quem é o deficiente intelectual? É aquele que tem o cognitivo abaixo da média.  A pessoa com deficiência múltipla atendida na APAE é aquela que tem a deficiência intelectual associada à outra deficiência, em muitos casos a deficiência física. Nossas ações são na área da saúde, educação e assistência social. Trabalhamos com estas três políticas públicas, porque a pessoa com deficiência além do atendimento educacional especializado demanda também atendimento de saúde e de assistência social, considerando que a própria deficiência os coloca em situação de vulnerabilidade.

Mônica: Qual a capacidade de atendimento?

Ernestina: Nossa capacidade de atendimento é 950 usuários mensais, normalmente este número extrapola. Em 2012 a média de atendidos foi de 961 mês. A prioridade de atendimento são para os bebês, considerando os benefícios da estimulação  o mais precoce possível. No decorrer do ano de 2012, só na estimulação precoce admitimos 43 bebês.  Ter um filho com deficiência é uma situação que qualquer um está sujeito, não é uma ocorrência em família de maior vulnerabilidade econômica. Quando uma família tem um filho com deficiência  ela precisa ser acolhida e o filho ser estimulado o quanto antes, e a APAE oferece este atendimento. A entidade recebe também  alunos para a escola na educação infantil, ensino fundamental e educação para o trabalho. Aqueles casos mais comprometidos permanecem em atendimento ambulatorial. Na escola temos 638 alunos, na estimulação precoce quase 100, além do atendimento ambulatorial especializado. No atendimento ambulatorial temos alguns casos comprometidos que não têm condições de vir para a escola. Recebem atendimento de fisioterapia, de fonoaudiólogo e acompanhamento médico, para que ele consiga ter estabilidade e em alguns casos começam a frequentar a escola. Os atendimentos no início do ano são em torno de 850 usuários, mas no decorrer do ano vai aumentando, em Dezembro de 2012 fechamos com mais de 1.000 atendimentos, e a média anual foi de 961 usuários mês.

Mônica: Qual é o objetivo e a finalidade da APAE na vida das pessoas com deficiência intelectual e múltipla?

Ernestina: A APAE tem por missão atender a pessoa com deficiência intelectual e múltipla e suas famílias visando à melhoria da qualidade de vida dos mesmos. A relevância deste trabalho está na manutenção da qualidade de vida dos atendidos, porque a deficiência não é uma doença, mas ela acaba limitando a pessoa em alguns aspectos, precisando ser estimulada por equipe técnica especializada como  o atendimento do fonoaudiólogo, fisioterapeuta, Terapia Ocupacional, psicólogo, assistente social  e outros, bem como o trabalho de acompanhamento e orientação às famílias.

Mônica: Qual a importância de uma entidade como a APAE para a sociedade de Franca e região?

Ernestina: A APAE é uma entidade especializada no atendimento à pessoa com deficiência, somos referencia em Franca e região. A entidade atende Franca e outros municípios de pequeno porte da região que não tem uma rede especializada no atendimento a pessoa com deficiência.  O atendimento especializado para a pessoa com deficiência é de alto custo e em muitos casos os pequenos municípios não conseguem estruturar este serviço para seus munícipes, neste caso são encaminhados para Franca. Alguns municípios contribuem financeiramente com a entidade outros não. Temos o exemplo de Rifaina (SP), que encaminha  as pessoas para atendimento na APAE e contribuem  mensalmente para ajudar no custo do atendimento, que é o mais justo. O diferencial da APAE é isso, o atendimento especializado e integrado  às pessoas com deficiência, nas três áreas das principais políticas públicas, ou seja,  saúde, educação e assistência social.

Mônica: Como é desenvolvido o programa de educação?

Ernestina: Na educação trabalhamos com o programa de educação infantil e  ensino fundamental, que é composto pelo  ensino de 1º ao 5º ano, socioeducacional e a educação para o trabalho. A educação infantil, normalmente é dos três aos cinco anos e onze meses, porque a partir dos seis anos já é o ensino fundamental.  No socioeducacional é atendido o aluno que não teve progressão no ensino de 1º ao 5º ano  considerando a deficiência, e quando falamos em progressão estamos falando em alfabetização. O socioeducacional vai trabalhar com o aluno questões como atividade de vida diária, vida prática, para que o mesmo ganhe independência para ir ao banheiro, para se alimentar sozinho, para se vestir, ou seja, maior independência nas atividades de vida diária. Na educação para o trabalho são aqueles alunos que tem a deficiência intelectual, mas que possui potencial / perfil para ser inserido no mercado de trabalho. São estimulados e preparados para o mundo do trabalho e encaminhados para o estágio ou inserção direta no trabalho.

Mônica: Como é desenvolvido o programa da saúde?

Ernestina: Na saúde trabalhamos com a estimulação precoce, o atendimento ambulatorial especializado e o atendimento itinerante. A estimulação precoce é o atendimento dos bebês, de zero a três anos. A partir do momento em que a criança  tem um pouco de independência, e já passou por esta fase de estimulação, ela vai para a educação infantil. O atendimento ambulatorial especializado é ofertado por  médicos, dentistas, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, assistente social, visando superar e manter a qualidade de vida da pessoa com deficiência para que não tenha comprometimentos mais sérios em decorrência  da deficiência, já o atendimento itinerante é ofertado no domicilio da pessoa com deficiência.

Mônica: Como é desenvolvido o programa de assistência social?

Ernestina: A Assistência Social perpassa a área da saúde e educação, é a área preponderante da APAE, pois trabalha no atendimento e na defesa e garantia de direitos da pessoa com deficiência. Desde o momento que o usuário chega à entidade, a família é acolhida, acompanhada e  orientada. Cada programa que a criança está é um tipo de orientação e/ou atendimento, fora alguns projetos específicos que temos, tanto com o usuário, como com as famílias. Para as famílias oferecemos  o atendimento psicossocial, através de abordagem grupal,  onde é discutido questões de interesse da família, como garantia de direitos, questões sociais e orientações gerais. Outro atendimento ofertado são as oficinas de artesanato ou culinária, onde realizado cursos diversos para as famílias. Ao mesmo tempo em que aprendem, estão convivendo umas com as outras e se fortalecendo enquanto grupo, além de terem a oportunidade de venderem este trabalho. A entidade tem uma parceria com o Fundo Social de Solidariedade e com o  Ateliê da Família, que é um programa da Prefeitura Municipal e Secretaria de Ação Social, que tem por objetivo ofertar cursos e oficinas de geração de renda para as famílias. Ainda dentro da assistência temos o grupo de convivência, que atende  aqueles alunos de extrema vulnerabilidade, que em grande parte possuem somente a deficiência intelectual, e são altamente influenciáveis e vulneráveis  a questões como a droga e o tráfico,  vivendo em situação de risco. Realizamos  um trabalho sistemático com estes jovens,  que normalmente permanece o dia todo na entidade, visando protegê-los para que não fiquem na rua, expostos a estas questões. Outro serviço é o socioassistencial, aonde o adolescente vem no período contrário, três dias por semana. Neste trabalho são desenvolvidas atividades de dança, música, esporte, onde o participante escolhe aquela atividade que tem maior interesse e é treinado para campeonatos e  participação nas Olimpíadas de APAES.

Desenvolvemos também um trabalho visando a autonomia e independência dos atendidos nas atividades de vida prática e diária. Este trabalho é coordenado pela terapeuta ocupacional, realizado na cozinha didática da entidade, onde os usuários aprendem a preparar um lanche rápido, uma refeição mais simples, esquentar a própria comida e se servir com independência. Outra ação realizada são as atividades de vida prática, onde um grupo de usuários  são estimulados a andar de ônibus, vão ao supermercado e aprendem a realizar pequenas compras, como uma carne e verdura, eles têm capacidade, precisam ser incentivados e orientados.

Temos ainda o trabalho da nutricionista  de educação alimentar com um grupo de mães, discutem a importância de uma alimentação saudável e os cuidados que se deve ter com a alimentação dos filhos, colocando limites quando necessário.

Finalizando a área da assistência temos o serviço de inserção e apoio no mercado de trabalho, que é realizado em conjunto com a educação para o trabalho, onde busca-se  a inserção do jovem em cursos específicos, que possam contribuir na sua formação para o  trabalho.  Neste contexto temos uma parceria com o SENAC Franca, no projeto chamado PET TRAMPOLIM, onde eles preparam o adolescente para o mercado de trabalho, por um período de um ano.

Mônica: Quais são os eventos realizados e as formas de arrecadação de verba?

Ernestina: A APAE é mantida com recursos públicos através de parcerias e convênios com o poder público e recursos captados junto à sociedade civil. O recurso público é buscado na esfera municipal, estadual e federal. Na esfera municipal temos o apoio da prefeitura na área da educação com a cessão de professores,  merenda e parte do transporte escolar, na área da assistência social, recebemos  subvenção municipal para os serviços socioassistenciais, para que cada área tenha condições de desenvolver seu trabalho com equipe técnica adequada. Na área da saúde recebemos o apoio do município com a cessão de um médico pediatra e um dentista. Em nível estadual temos o convenio da educação, onde recebemos um recurso para pagar e contratar parte dos professores, diretor escolar e coordenador para a educação especial. Na área da saúde temos o apoio do estado com vinte mil reais por ano, que contribui para as despesas de custeio.  A nível federal recebemos recurso  do Fundo Nacional de Assistência Social, e do Ministério da Saúde que é um recurso repassado pela Secretaria Municipal de Saúde, por procedimento realizado, pagos através da tabela SUS, que mantém parcialmente os atendimentos de saúde. Em todos os serviços a APAE tem uma contrapartida significativa que é captada junto à sociedade civil, em eventos como o leilão e a festa de San Gennaro, que são os dois grandes eventos da entidade, têm também a captação via telemarketing, que chamamos de central de doações. Além disso, temos os nossos associados que são contribuintes, que pagam uma mensalidade, semestralidade ou anuidade. Ressaltamos que os serviços oferecidos integralmente gratuitos para os usuários atendidos.

Mônica: Como é dividida a infraestrutura do prédio da APAE?

Ernestina: As entidades do terceiro setor que atuam em mais de uma área deve ter suas receitas e despesas segregados por área, bem como seu patrimônio, está  é uma exigência da Lei 12.101/2009, que dispõe sobre a certificação das entidades sem fins lucrativos. Atualmente os espaços são definidos por área de atendimento, temos o ambulatório para atendimentos de saúde, blocos educacionais, bloco socioassistencial, refeitório e administração. Os serviços administrativos atendem as áreas da saúde, educação e assistência social.

Mônica: Quando uma pessoa é encaminhada para a APAE e chega aqui com esse encaminhamento, qual é o processo para saber se a APAE irá atender as necessidades destas pessoas, ou se ela tem que ser encaminhada para outra rede de serviço?

Ernestina: Com a questão da educação inclusiva, a APAE fez um acordo com o Ministério Público, através do Promotor da Pessoa com Deficiência, que só vamos receber para atender na escola aquele alunado encaminhado pela rede regular. Porque será encaminhando para a APAE somente aquele aluno que não tiver condições de ser beneficiado com o atendimento na rede regular. Então a entidade somente recebe o aluno com encaminhamento da rede municipal ou estadual de educação. Temos também dentro da entidade uma comissão  com representantes da rede estadual e da rede municipal de educação, da APAE e de cidade vizinha, que faz avaliação dos alunos que estão matriculados na entidade, para verificar  se há  possibilidade de serem incluídos na rede. Temos casos que independente da comissão avaliar, se a família desejar levar para a rede, ela tem esse direito. Então todos os anos temos crianças que são incluídas na rede regular, ou por indicação da comissão ou por vontade própria das famílias. Na saúde para o usuário ser atendido, ele deve ter um encaminhamento médico que comprove a deficiência, porque a APAE só atende quem tiver deficiência intelectual. Para a pessoa com deficiência ser admitida na entidade, ela vai passar por uma equipe de avaliação, composta por assistente social, médico, fisioterapeuta, fonoaudióloga, psicólogo e pedagogo. É uma equipe multiprofissional que avalia  a criança, caso seja  identificado a deficiência intelectual, ela vai ser admitida e encaminhada  para o programa que melhor atender suas necessidades.

Mônica:  A APAE prepara seus alunos para que eles tenham a oportunidade de serem incluídos, tanto no mercado de trabalho como na rede regular de ensino?

Ernestina: Sim, nós trabalhamos com a inclusão e quando um aluno vai ser inserido no mercado de trabalho e/ou  na rede regular de ensino, isto é motivo de alegria para nós.  Se todos os espaços estivessem preparados para receber as pessoas com deficiência, seria perfeito,  porque a APAE trabalharia  na defesa e garantia de direitos dos mesmos. A entidade é inclusivista, mas desejamos uma inclusão com qualidade, para que o aluno realmente ganhe na socialização e na educação.

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Mônica: Como é avaliado se o aluno tem condições de ir para o mercado de trabalho e como ele é encaminhado?

Ernestina:Para o mercado de trabalho o aluno deve ter pelo menos 16 anos e ter participado da educação para o trabalho, pois é uma forma de prepará-lo para que a inclusão no trabalho tenha sucesso. Este trabalho fica na responsabilidade da coordenadora da educação para o trabalho e da coordenadora de projetos sociais, que faz contato com as empresas, visando identificar vagas de trabalho para inserção dos atendidos. Uma vez inserido, o jovem continua senso acompanhado e a empresa tem o apoio da entidade na solução de problemas que possam surgir.

 

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Um comentário sobre “Entrevista com Ernestina Maria de Assunção Cintra, Assistente Social e Gestora de Convênios da APAE Franca

  1. Bem completa a entrevista com a assistente social Ernestina Maria de Assunção Cintra. Suas respostas oferecem um panorama da atuação importante e fundamental da APAE. A abordagem da pesquisa, Mônica, tem caminhos interessantes para trilhar.

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